O uso medicinal do canabidiol foi recentemente liberado pela ANVISA, Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
Um dos inúmeros compostos presentes na maconha, o canabidiol ou CBD, não apresenta efeitos psicoativos e se mostrou um tratamento eficaz para doenças neurológicas como a epilepsia.
O canabidiol não altera os sentidos, não apresenta propriedades alucinógenas e estudos recentes sugerem que também pode ser um tratamento eficaz para a esquizofrenia.

Esquizofrenia

A esquizofrenia é uma doença mental crônica, que tipicamente se manifesta na idade adulta jovem ou adolescência.
É comumente reconhecida por apresentar delírios e alucinações, bem como distúrbios do pensamento, dos processos volitivos e cognitivos.
Devido à natureza difusa dos sintomas, o comprometimento pessoal importante e o seu curso crônico, a esquizofrenia é considerada uma das 10 principais causas de morbidade relacionadas a doenças de qualquer natureza.

Cannabis

A Cannabis sativa é uma planta da família das Canabiáceas, que possui propriedades psicoativas e é utilizada, entre outros fins, para a produção da maconha.
A cannabis possui mais de 400 componentes com propriedades variadas.
Entre eles estão o Δ9 THC  (delta-9-Tetra-Hidrocanabinol), reconhecido como principal componente psicoativo da cannabis e o canabidiol ou CBD, que não apresenta efeitos alucinógenos e tem recebido atenção crescente devido ao seu potencial terapêutico.
Com efeito, o uso medicinal de extratos de Cannabis sativa datam do período antes de Jesus Cristo e tiveram o seu auge no final do século 19, quando eram utilizados para condições como: quadros dolorosos, tosse comprida e asma, bem como por suas propriedades sedativas e hipnóticas.
No entanto, os efeitos da cannabis eram frequentemente imprevisíveis, irregulares podendo gerar ansiedade e entorpecimento cognitivo.
Por este motivo, à partir da década de 60, com o advento de compostos farmacológicos sintéticos mais estáveis, o uso medicinal de cannabis praticamente desapareceu.

Cannabis e esquizofrenia

É reconhecido que existe uma associação entre a cannabis e a esquizofrenia.
Estudos já demonstraram que o uso frequente e regular de cannabis na adolescência pode precipitar ou mesmo desencadear esquizofrenia em uma parcela de jovens que não necessariamente desenvolveriam a doença.
O uso de cannabis em pacientes com esquizofrenia está associado a maiores taxas de recaída, sintomas mais intensos, tratamento prejudicado bem como perda de massa cinzenta.

O Δ9 THC , quando administrado em doses altas a seres humanos produz ansiedade e pode induzir efeitos psicóticos agudos e comprometimento cognitivo.

Já o canabidiol, quando administrado individualmente, pode produzir efeitos sedativos, anticonvulsivantes, neuroprotetores e hormonais.

Segundo um brasileiro de 19821, a  administração de canabidiol a voluntários que haviam recebido o Δ9 THC reduziu significativamente os níveis de ansiedade e sintomas psicológicos induzidos pelo Δ9 THC, sugerindo que o canabidiol pode bloquear os efeitos do Δ9 THC.

Ou seja, o canabidiol poderia proteger os indivíduos dos efeitos negativos do Δ9 THC.
Na década de 90 foi identificado o mecanismo de atuação da cannabis no organismo.
Descobriu-se no cérebro a presença de receptores canabinoides, locais onde a cannabis se acopla e produz ações biológicas.
Também identificou-se o sistema de canabinoides endógenos, compostos produzidos e presentes naturalmente no próprio organismo, fundamentais para a manutenção do humor, da memória e do sistema de recompensa.

Acredita-se que o sistema endocanabinóide esteja de alguma maneira implicado na fisiopatologia da esquizofrenia ou melhor dizendo, na produção e manutenção da doença.

Canabidiol como Tratamento para Esquizofrenia

O tratamento da esquizofrenia é feito basicamente através de medicações anti-psicóticas que podem ser classificadas como típicas ou atípicas.
O mecanismo de funcionamento das medicações anti-psicóticas convencionais involve, invariavelmente, uma atuação nos sistemas de dopamina.
É a atuação neste sistema que confere a estas medicações a capacidade de tratar os delírios e alucinações que caracterizam os quadros psicóticos.
Outro sistema implicado é o sistema do glutamato, relacionado aos receptores de tipo NMDA, reconhecido como sítio de atuação da clozapina (Leponex®), um anti-psicótico atípico indicado para o tratamento da esquizofrenia refratária.
A clozapina é utilizada quando medicações convencionais não apresentam resultado.

Estudos farmacológicos em modelos animais sugerem que o canabidiol apresenta atuação tanto no sistema dopaminérgico quanto glutamatérgico, sendo os 2 sistemas responsáveis por suas propriedades anti-psicóticas.

Ensaios clínicos que testam o uso de canabidiol em seres humanos são poucos.

Até o momento, foram publicados 5 estudos (4 deles brasileiros) que investigam o uso do canabidiol como tratamento para a esquizofrenia.

O primeiro deles2 é um relato de caso que mostra melhora dos sintomas psicóticos com a administração do canabidiol, o que não aconteceu com o uso de haloperidol adminsitrado ao mesmo paciente.

O segundo 3 apresenta 3 pacientes com esquizofrenia refratária submetidos ao tratamento com canabidiol, porém somente 1 dos pacientes apresentou melhora discreta com canabidiol como tratamento em monoterapia (exclusivo).

O terceiro4 estudo investiga o uso de canabidiol em pacientes com parkinson e sintomas psicóticos e mostra que os sintomas foram reduzidos com ausência de efeitos adversos.

Um quarto estudo5 avalia se o canabidiol poderia melhorar a atenção seletiva de pacientes com esquizofrenia, porém os resultados não são muito diferentes da administração de placebo.

O canabidiol também pareceu não atuar nos sintomas da esquizofrenia.

O maior ensaio clínico6 até o momento é um estudo duplo-cego randomizado com 39 pacientes (o que confere maior poder estatístico à investigação) que compara o uso de amisulprida e canabidiol para o tratamento de pacientes com esquizofrenia.

Ambas as substâncias resultaram em melhora clínica significativa, porém o canabidiol apresentou significativamente menos efeitos colaterais como sintomas extra-piramidais (ex. tremores e rigidez), ganho de peso e elevação de prolactina.

conclusão

  • a relação entre os componentes da cannabis e a esquizofrenia é bastante evidente
  • o sistema endocanabinóide muito provavelmente está implicado na doença
  • os estudos mostram resultados promissores com relação ao uso de canabidiol como um antipsicótico, tanto pela sua eficácia quanto por um bom perfil de tolerabilidade

No entanto, ensaios clínicos maiores e mais longos são necessários para examinar de maneira mais aprofundada o potencial terapêutico do canabidiol para a esquizofrenia.

referências
1. Zuardi AW et al. Action of cannabidiol on the anxiety and other effects produced by Δ9 THC in normal subjects. Psychopharmacology, 76: 245-250, 1982.
2. Zuardi A.W et al. Antipsychotic effect of cannabidiol. J. Clin. Psychiatry 56, 485–486, 1995.
3. Zuardi AW et al. Cannabidiol monotherapy for treatment-resistant schizophrenia. J. Psychopharmacol. 20, 683–686, 2006.
4. Zuardi AW et al.Cannabidiol for the treatment of psychosis in Parkinson's disease. J. Psychopharmacol. 23, 979–983, 2009
5. Hallak JEC et al.Performance of schizophrenic patients in the Stroop Color Word Test and electrodermal responsiveness after acute admin- istration of cannabidiol (CBD). Rev. Bras. Psiquiatr. 32, 56–61, 2010. 
6. Leweke FM et al.  Cannabidiol enhances ananda- mide signaling and alleviates psychotic symptoms of schizophrenia. Transl. Psychiatry 2, e94, 2012.